Talvez a gente tenha medo da paz

Fui comprar café e voltei com um monte de perguntas que não estavam na lista. Típico.

Era noite, eu tinha acabado a yoga e você já sabe como é: corpo pedindo cama, cabeça achando que é hora de resolver a vida (é sempre assim). Desviei pelo supermercado.

Era só o café. Juro.

As filas no Mercadão estavam um absurdo, então fui direto pro autoatendimento, que combinava mais com a minha agoniação, né?!

Ia colocar um fone pra o tempo passar mais rápido quando percebi duas mulheres na minha frente. Talvez as duas tivessem lá os seus cinquenta e poucos anos. Conversavam sobre o casamento. Que estava ruim. Que o marido jogava futebol três vezes por semana. Que não viajavam mais juntos, não saíam pra jantar, não faziam nadaaaaa a dois.

E aí uma delas falou, com uma naturalidade que me deu um nó no estômago (chega deu um embrulho NA HORA):

“mas é assim mesmo. a vida é isso.”

A outra concordou. Eu fiquei quieta, mas aquilo ficou comigo.

Saí de lá, peguei o Uber e entrei no carro bem quietinha. Aquela frase não saía da cabeça.

Não era sobre o casamento delas. Era sobre essa aceitação tão automática, tão naturalizada. Como se viver mal fosse parte obrigatória da experiência adulta.

E comecei a pensar em quantas áreas da vida a gente faz exatamente isso. Negligencia. Empurra com a barriga. Vai levando…

A gente se acostuma com o colega que trata mal. Com o ambiente que suga a energia. Com um cansaço que nunca passa de verdade. Com aquela sensação constante de que algo está errado, mas não errado o suficiente para agir.

A gente vai se adaptando. Vai diminuindo o incômodo. Vai chamando de fase. De rotina. De maturidade.

E de repente viver meio triste, meio frustrada, meio cansada vira o padrão.

Eu não acho que a vida seja fácil o tempo todo. Mas também não acredito que ela precise ser um lugar onde a gente só aguenta.

Talvez a gente não tenha medo do sofrimento. Talvez o que a gente realmente tenha medo seja da paz.

Porque paz exige escolha. E escolher diferente mexe em tudo.

Eu só sei que eu não quero me acostumar.

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